O relógio do crime transnacional na América Latina passou a correr em um ritmo diferente. Em uma decisão de forte impacto geopolítico, o governo dos Estados Unidos anunciou que passará a classificar formalmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês).
O anúncio oficial foi feito em nota assinada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Inicialmente, as facções foram enquadradas na categoria de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs). A transição definitiva para a lista oficial de terroristas internacionais — onde dividem espaço com grupos extremistas globais — está marcada para entrar em vigor no dia 5 de junho de 2026.
A medida reflete a atual doutrina da administração do presidente Donald Trump na América Latina, que busca combater o narcotráfico por meio de uma estratégia endurecida contra o "narcoterrorismo", expandindo o uso de sanções e pressões de segurança na região.
As Justificativas de Washington
No comunicado que chocou os bastidores diplomáticos em Brasília, Marco Rubio não poupou palavras para descrever o peso das duas maiores organizações criminosas do Brasil. O secretário de Estado afirmou:
"CV and PCC are two of the most violent criminal organizations in Brazil. Together, they command thousands of members and have orchestrated brutal attacks against Brazilian police officers, public officials, and civilians."
(Em tradução livre: "O CV e o PCC são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil. Juntos, eles comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, funcionários públicos e civis brasileiros.")
Rubio ainda alertou para a expansão geográfica dos tentáculos dessas redes:
"Their influence and illicit networks extend far beyond Brazil's borders, across our region and into our country."
(Em tradução livre: "Sua influência e redes ilícitas estendem-se para muito além das fronteiras do Brasil, através da nossa região e para dentro do nosso país.")
A engrenagem política que acelerou o processo teve forte influência do cenário eleitoral e de articulações em Washington. A declaração americana ocorreu apenas 24 horas após uma visita oficial do senador brasileiro Flávio Bolsonaro à capital dos EUA, onde se reuniu com o próprio Donald Trump, além de JD Vance e Marco Rubio, para defender a medida. Flávio Bolsonaro, que busca viabilidade política para as eleições presidenciais de outubro após desgastes recentes envolvendo transações financeiras, celebrou a medida declarando:
"Lula was on his knees to Trump to lobby for CV and PCC, and I was there to work so they can be treated as terrorists, which is what they are."
(Em tradução livre: "Lula estava de joelhos para Trump fazendo lobby pelo CV e PCC, e eu estava lá para trabalhar para que eles pudessem ser tratados como terroristas, que é o que eles são.")
O Embate Diplomático e os Temores de Brasília
A classificação norte-americana é vista pelo Palácio do Planalto como uma forte interferência externa nos assuntos internos e no debate eleitoral brasileiro. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva operou nos bastidores diplomáticos até o último minuto para tentar frear a decisão de Washington.
O principal argumento brasileiro é técnico e soberano: a legislação antiterrorismo do Brasil limita o conceito de terrorismo a atos movidos por xenofobia, preconceito ou razões ideológicas, não englobando o crime organizado convencional voltado ao lucro.
A reação interna do governo foi de clara contrariedade. Demonstrando preocupação com as repercussões e uma possível escalada de medidas de força por parte dos EUA na região, o assessor especial para assuntos internacionais, Celso Amorim, foi categórico ao criticar a abordagem norte-americana:
"Equating organized crime with terrorism is not useful."
(Em tradução livre: "Equiparar o crime organizado ao terrorismo não é útil.")
O governo brasileiro teme que a rotulagem de terrorismo abra caminhos jurídicos perigosos para sanções unilaterais contra o sistema bancário nacional e, no limite, justificativas para intervenções ou ações militares indiretas por parte dos EUA na América do Sul, a pretexto de segurança nacional.
Análise Jornalística: O que muda na prática?
O novo enquadramento jurídico do PCC e do CV gera consequências profundas que ultrapassam a retórica política e se dividem em três eixos principais:
1. O Estrangulamento Financeiro
Na prática jurídica americana, a principal consequência de uma designação FTO é a criminalização instantânea de qualquer pessoa ou empresa que preste conscientemente "suporte material" a essas organizações. O termo "suporte material" é extremamente amplo e engloba:
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Transferências de dinheiro ou criptoativos;
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Serviços de logística, transporte e hospedagem;
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Treinamento, consultoria técnica ou fornecimento de tecnologia.
Instituições bancárias internacionais e operadoras de cartões de crédito que movimentarem recursos derivados ou associados, mesmo que indiretamente, a membros dessas facções estarão sujeitas a multas bilionárias e ao congelamento de ativos por parte do Tesouro americano.
2. Implicações Penais e de Imigração
A partir de 5 de junho, integrar ou apoiar financeiramente essas facções passa a ser considerado crime federal nos Estados Unidos. Além disso, qualquer cidadão estrangeiro associado a essas redes terá seu visto permanentemente revogado e sua entrada nos EUA proibida sob as leis rígidas de contraterrorismo.
3. O Paradoxo do Combate ao Crime
Embora o peso financeiro da canetada de Washington seja enorme, analistas de segurança pública pontuam um forte paradoxo: especialistas ouvidos pelas agências internacionais destacam que, somadas, as facções brasileiras ultrapassam 50 mil membros operacionais, mas o coração financeiro de sua expansão global nos últimos anos e suas principais conexões de exportação de cocaína estão concentradas na Europa, e não na América do Norte.
Portanto, enquanto o impacto nos fluxos bancários em dólar será imediato, o real desmonte das cadeias de suprimento dessas facções ainda dependerá da cooperação direta de autoridades brasileiras e europeias. Internamente, a decisão transforma-se em combustível inflamável para a campanha presidencial de 2026, com a oposição utilizando a medida para acusar o governo de leniência, e a situação denunciando a interferência e o uso político de uma agência estrangeira.