Longe do romantismo abstrato, o apóstolo Paulo define o verdadeiro vínculo como uma escolha de autossacrifício, paciência e ação deliberada
Por Márcia Mello
A nossa cultura ocidental cometeu um erro crasso com a palavra "amor": nós a transformamos em uma mercadoria puramente emocional. Aprendemos a cantar o amor como um frio na barriga, uma paixão avassaladora ou uma inclinação involuntária do coração. O problema dessa perspectiva é que as emoções são sazonais. Elas vêm com o vento das circunstâncias favoráveis e partem ao primeiro sinal de inverno na convivência. Se o amor for apenas aquilo que sinto, o que farei nos dias em que não sentir nada?
Para resgatar a solidez das relações humanas, precisamos voltar os olhos para uma das cartas mais contundentes da literatura universal. Quando o apóstolo Paulo escreve aos crentes da efervescente e caótica cidade de Corinto, no capítulo 13 de sua primeira epístola, ele decide dissecar o amor. O texto, frequentemente lido em tom de poesia suave em casamentos, é, na verdade, um tratado de urgência prática:
"O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se gaba, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor."
Como estudiosa do texto sagrado, o que sempre me impressionou na escolha linguística de Paulo no grego original (agape) é que ele ignora os adjetivos abstratos. Ele constrói uma verdadeira anatomia do amor usando verbos de ação e de negação. O amor, aqui, não é o que se sente, mas o que se faz ou o que se escolhe deixar de fazer.
Dizer que "o amor é paciente" e "bondoso" significa que ele escolhe suportar a lentidão do outro e reage com generosidade prática, mesmo quando o cenário justifica a rispidez. Ao listar as negações — não inveja, não se gaba, não se orgulha, não guarda rancor —, o texto nos confronta com uma verdade incômoda: amar exige uma renúncia voluntária do nosso próprio ego. É o sacrifício consciente do desejo de ter sempre razão, de pisar no acelerador da ira ou de manter um caderno de contabilidade para os erros alheios.
Nos meus anos trabalhando com desenvolvimento humano e liderança, percebo que os vínculos mais profundos e duradouros não se sustentam na intensidade do sentimento inicial, mas na firmeza de uma decisão. O amor agape é uma postura ética. É olhar para o outro — seja um filho, um parceiro de vida, um colega de equipe ou um desconhecido que bate à nossa porta — e decidir agir em favor do bem dele, mesmo quando ele não merece ou quando a nossa vontade imediata seria dar as costas.
Amar dá trabalho. Exige musculatura emocional e maturidade espiritual. Significa trocar o "eu quero" pelo "como posso servir?". Se quisermos reconstruir um tecido social tão fragilizado pelas urgências e descartabilidades modernas, precisamos parar de esperar pelo "sentimento perfeito" e começar a praticar a gramática de Paulo. O amor verdadeiro não é um acidente que nos acontece; é uma escolha diária de autossacrifício que decidimos viver.